[Coluna] A Terceirização da Fé

Pelo colunista Igor Oliveira Pereira, com colaboração de Janaina L. Azevedo.

Vemos hoje que muitos desejam, dizem ou rogam para os queridos, próximos, ou até mesmo estranhos, frases como “Deus proverá”, “Se Deus quiser”, “Deus me livre”, “Deus vai operar um milagre” ou “Deus não vai deixar que isso aconteça”. Dadas estas expressões populares, não é muito difícil assimilar que, desta forma, o “tal” Deus esteja de fato no controle. Mas, tais demonstrações de “fé, acabam, na verdade, por banalizar o exercício do poder que Deus realmente faz na vida das pessoas, ou mesmo, demonstrar poder até maior que ele de fato tem (uma vez que fazê-lo, violaria o equilíbrio e as regras que eles mesmo criou e segue em seu universo).

“Mas Deus pode tudo”. Não é por que tudo é possível para Deus, que ele deve fazer tudo, ainda mais pelo capricho humano. E não é por que ele pode tudo que ele causará desequilíbrio para satisfazer o ego, o medo, ou mesmo para livrar uma pessoa das consequências de seus próprios atos. E neste momento é que vemos brotarem as acusações de heresia ou pouca fé, tão esperadas, e para as quais convidamos nossos acusadores a uma pequena série de reflexões.

A primeira destas reflexões está relacionada ao Contexto: veja as situações em que as pessoas usam esse tipo de expressão, colocação ou comportamento. Em geral, em situações em que a impotência humana se manifesta de forma bastante proeminente, e em que as opções mundanas, científicas, materiais e físicas se esgotaram – ou, assim as pessoas colocam, seja por comodismo, seja por preferirem não ter, por si só, o trabalho de trabalhar com as consequências de seus atos. Sejamos ousados: isso desemboca em duas situações , a primeira reside na manutenção da fé irracional, que serve ao controle de massas perfeitamente, e, em segundo lugar, a transferência de responsabilidade das consequências dos atos que realizamos.

Deixemos a questão do controle das massas para outra ocasião (isso dá muito assunto em outras ocasiões). Mas no segundo caso, quando temos um problema que parece insolúvel, é muito fácil “entregar” o controle na mão de quem é mais experiente ou safo naquela situação, se for alguém que “pode tudo”, então…

Porém, ao agir dessa maneira, muitos acabam consciente (ou inconscientemente) transferindo toda a carga emocional, de aprendizado e responsabilidade para uma entidade / divindade, deixando o aprendizado de lado, pois ao terceirizar a responsabilidade de resolver o problema, nada se aprende com ele. E, com isso, é lugar comum também vermos essas situações também servirem como um salvo conduto para erros futuros e passados.

Só que cada uma dessas “interferências” tem sua consequência, e um aprendizado que deixa de ser feito, acaba tendo um preço ainda maior por ser deixado de lado. Quem deixa de aprender, por que não sabe lidar com os pequenos aprendizados cotidianos e tudo relega a Deus, às entidades, Mentores, Forças Superiores ou qualquer coisa que o equivalha, acaba fazendo com que sejam contraídas apenas mais e mais “dívidas” para serem resolvidas no futuro – isto, obviamente, tomando uma visão reencarnacionista / espiritualista como parâmetro.

No âmbito das Igrejas, Templos e Centros Religiosos, se estimulado, especialmente pelo trabalho de sacerdotes, pastores, orientadores e mentores, isso tanto leva ao controle das massas e a uma mansidão que alimenta um ciclo infinito de isentar-se das próprias culpas e responsabilidades, quer pela “inocência” de certos sacerdotes cuja fé cega os leva a pensar dessa maneira (ou seja, cometem o mesmo erro devido ao senso comum), quanto pela “desonestidade” ou “corrupção” da religião ou doutrina, que ao invés de guiar os necessitados, os leva a caminhos carnalmente (ou até espiritualmente) tortuosos. É a atitude pela qual a “terceirização da fé”, ou das consequências dos próprios atos, se transforma em manipulação de massas pela fé, um ritual sem sentido de manutenção irracional da fé, que mencionamos anteriormente, e o indivíduo, por si só, entra num ciclo infinito de negação das responsabilidades e atribuição de pedidos a uma força superior que lide com os mesmos em seu lugar.

Mas o ponto é: isso atrasa a evolução, não só espiritual, mas física e social do indivíduo e do coletivo ao qual ele faz parte. Ter medo de algo muito grande é normal (especialmente questões de saúde ou cuja saída nos parece impossível, digna de um milagre), mas nem tudo é insolúvel ou digno de ser colocado diretamente nas mãos de Deus, sem que assumamos nenhuma responsabilidade sobre o fato. Nestes casos, é necessário encarar seus problemas e tomar as rédeas de suas ações em suas ações, fazê-lo de frente, e ser humilde para pedir ajuda, sem, necessariamente, deixar tudo na mão da Fé, de Deus, da religião, das entidades ou sacerdotes. Pedir ajuda é diferente de pedir para o outro fazer – viemos para este plano para aprender. Entregar suas responsabilidades para um terceiro tem o mesmo valor de pedir para um amigo fazer sua tarefa de casa e esperar que você saiba aquele conteúdo por osmose.

Deus, ou qualquer entidade que o valha, vai ouvir suas orações, pedidos, prantos, clamores e qualquer outra fonte de pedido, mas, no fim de tudo, quem de fato vai passar pelo problema e ter que achar uma solução é você mesmo.

Por mais que se relute, a resolução é sua, sem chance de alienação. Uma hora, a conta vem.

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