Culto a Ancestralidade

Como a África se reconstrói por meio dos cultos aos Ancestrais

Publicado originalmente na Revista Raça de Novembro de 2009

Quem assiste as imagens que retratam a África nos dias atuais vê um continente riquíssimo em cultura, recursos naturais e muitos outros bens, materiais e imateriais, mas que ainda vive soterrado sob os escombros das guerras, da colonização que terminou há menos de 40 anos e da transculturação. Este último processo foi o que deixou marcas mais profundas: mais do que dominar o continente para explorar sua mão de obra e seus recursos naturais, muitas foram as tentativas de subjugar culturalmente as nações ali existentes, despojando-as de suas religiões, de sua arte, de seu modo de vestir, de sua arte, de sua música, de sua dança, de suas festas e incutindo a do europeu civilizado. Reverter um quadro destes pode ser muito difícil. Mas, desde o início das lutas pela libertação do continente, um recurso proveniente do próprio povo e de sua força, tem sido a grande alavanca que reergue os valores das mais diversas etnias e nações africanas: o culto aos ancestrais e às suas raízes na terra.


Um pouco de história

Mais do que falar que o continente africano é o berço das civilizações e que lá foram encontrados os mais antigos fósseis do gênero homo (sapiens, neanderthal, erectus, etc), a parte da história que nos interessa remete aos dois últimos milênios, em especial, aos contatos entre as civilizações subsaarianas (que ficam abaixo do deserto do Saara, também conhecida como África Negra) e as civilizações e impérios europeus por conta de seu expansionismo e dos processos colonizatórios que infringiram a outros povos. A África, falando de colonização, passou por dois grandes momentos de intervenção européia: um, mais longo e menos invasivo, a partir do século XV, com a expansão marítima e o comércio de escravos, e outro no século, XIX, muito mais agressivo, que dividiu as regiões africanas – a régua e compasso, ignorando as necessidades étnicas, nações e realidades geográficas – entre as nações mais poderosas da Europa naquela época: Inglaterra, França, Bélgica, Portugal, Alemanha, entre outros menores.

Este processo separou comunidades, criou grandes processos migratórios por conta da necessidade de mão-de-obra para exploração dos recursos naturais, agrícolas e pecuários do continente. Mais que isso, em termos culturais e espirituais, este processo separou famílias, gerações, homens e mulheres, pais e filhos.


A perda da identidade

Não obstante, surgia a transculturação: para aqueles que se destacavam de alguma maneira, era dado “o direito e o privilégio” de ser branco – ao menos no papel. Era a Transculturação, um processo que dividiria o continente e suas nações de maneira cruel e incomparável: surgiam classificações pela cor, pelo local de nascimento, pela língua que se falava. Tudo isso, numa tentativa de reverter o colonizado a um membro passivo do processo de dominação, em resistências, sem uma cultura em que se apoiar, sem uma causa pela qual viver. E foi justamente a percepção desta condição que fez surgir movimentos como o da Negritude, grandes impulsionadores das Guerras de Libertação em toda a África. Esse movimento, em particular tem origens baseadas tanto em negros, quanto em brancos e mestiços que vinham lutando por um Renascimento Africano, desde as décadas de 1910, 1920 e 1930, com a valorização na arte e na literatura das raízes africanas – movimento este que se propagaria até a América, dando origem a grandes personalidades como Martin Luther King, Billy Holiday, Hurricane e na própria África inspiraria figuras como Pepetela, Mandela, entre outros.

Falou-se pela primeira vez em Negritude numa obra de Aimé Césaire, de 1938, um livro de poemas, “Cahier d’un retour au pays natal” (Memórias de um regresso a minha Terra Natal). O livro estava intimamente ligado às reivindicações dos estudantes africanos em Paris, nos princípios da década de 30, contra a exploração da África e a violência com que a cultura negra era banida nas colônias.

O ápice do movimento acontece quando Léopold Sédar Senghor (1906 — 2001), o primeiro africano a completar o curso na Sorbonne, uma das maiores universidades na área de humanidades do mundo, publica suas obras exaltando a identidade negra, mas lamentando o impacto negativo que a cultura européia nas tradições africanas. Essas obras marcariam os valores que, mais tarde, ajudariam a reerguer a cultura de outros tantos países africanos, além do seu próprio Senegal. Dentre estes valores, um, o mais importante, foi um grito de libertação para a cultura, a espiritualidade e a religiosidade:

“o homem negro é essencialmente religioso e cultural, ritual e celebrante, porque para ele existe um ente supremo, o “sagrado”, que é o verdadeiro real. O homem negro é simbólico, porque o seu mundo é o mundo das imagens e do concreto; todas as realidades materiais, visíveis e imediatas são anunciadoras e portadoras de outras realidades. O homem negro é o homem de coração, porque, para além do corpo, da forca vital, da habilidade, do entendimento e de todas as outras qualidades humanas; é ainda pelo coração que o homem se define, que o homem vale e é julgado; para usar a categoria de um provérbio africano: o coração do homem é o seu rei”.


As Raízes e seu Tronco

Ao reconhecer-se como um ser de alma, religião, cultura e coração, capaz de valorizar o sagrado, o que haveria de mais sagrado a dar valor que aqueles que vieram antes de nós, às nossas raízes, à nossa história, aos nossos ancestrais? Este foi o princípio do resgate de uma identidade, não perdida, mais abalada pelos constantes ataques da máquina da colonização e da exploração.

Embora existam muitos exemplares dos cultos aos ancestrais, sobreviventes do processo colonizatório, um dos mais significativos, quer por sua abrangência, quer por suas manifestações diretas e indiretas no Brasil, é o Culto do Baobá, uma árvore mítica, ancestral. As raízes são os ancestrais já abraçados pela terra, que habitam e coexistem num plano contíguo ao nosso, ajudando na vida dos que aqui estão, reencarnando para voltar ao seio da família e estar com aqueles que são do seu sangue. O tronco é formado pelas crianças, ainda em crescimento, em desenvolvimento, subindo em direção ao ápice de suas vidas. Os galhos e as folhas são o amadurecimento. Quando uma folha cai, ela retorna à terra, para alimentar as raízes, e assim volta a fazer parte delas. O baobá é a árvore da vida, a árvore do eterno ciclo de renovação. O mesmo ciclo de renovação que faz a África renascer, ainda que sob os passos morosos dos que ainda andam descalços sobre a terra castigada pela exploração, ou os passos que levam firmes o negro a revalorizar as suas origens.


Família e História – Vínculos Ancestrais

Meu baobá super-heróiAssim, é essencial falar sobre dois fatores importantíssimos dessa equação: a família e a história. O conceito de família para uma grande parte das comunidades africanas é muito diverso do que conhecemos no nosso cotidiano. A família não é um mero laço de sangue direto – pai, mãe, filho, filha, avô, avó, tios e tias. A família compreende todo o ambiente espiritual de que um indivíduo está cercado, a família está baseada na relação de cooperação, de ajuda mútua, de aprendizado. Em algumas comunidades, por exemplo, as crianças não têm um nome próprio até cerca dos sete anos de idade. E isso não acontece, como alguns pessimistas tentam provar, por causa de altas taxas de mortalidade. É sim por que o Africano enxerga que, a partir de então é que a criança começa a desenvolver sua personalidade. Antes de ser um indivíduo, ele deve estar integrado ao ambiente coletivo e ao ambiente espiritual, e mais do que isso, ele não tem apenas uma mãe: ele tem as mães espirituais, aquelas que precederam as que hoje estão encarnadas, e ele tem todas as mulheres daquela comunidade como sua mãe. A individualidade é um conceito europeu. Por isso a convivência social africana, o respeito pelos mais velhos e pelas tradições é tão mais intenso e presente nas comunidades autóctones, isto é, tribais. A família e o coletivo transcedem a carne e o mundo físico. Tal qual o Baobá, com raízes são profundas, mas cuja copa tenta alcançar o mais alto do céu.

O Baobá é a fonte da ancestralidade e a história de todos os que estão em suas raízes, tronco, folhas e galhos é guardada cuidadosamente. Entretanto, é necessário lembrar que a grande maioria das línguas africanas não possuía escrita até o contato com o europeu e, mesmo até hoje, uma grande parte ainda não o possui. Então, como a história era guardada?

De uma maneira muito simples: o africano especializou-se em guardar suas histórias por meio da música e da poesia, memorizando-as. Surgiram os historiadores da palavra, conhecidos como griots, aqueles que contam as histórias. Eles fixam em suas mentes as histórias e as passam de pai para filho, não só sobre uma família física, mas sobre toda uma comunidade. Histórias de Reis e de gente comum; histórias de guerras, batalhas, vitórias e derrotas; histórias de migrações, secas e chuvas, de boas colheitas e de estiagem. Os griots são a palavra que mantém viva a chama ancestral, pois eles não permitem que aqueles que viveram antes, sejam perdidos da memória. Eles não guardam apenas histórias. Guardam conhecimentos, e justamente por isso é que se diz que quando morre um griot na África é como se toda uma biblioteca de exemplares únicos fosse queimada.

E embora hoje exista o recurso da escrita, mais do que história e conhecimento, o papel do griot é um compromisso com o ancestral, o de não permitir ao jovem, á criança, ao homem e à mulher, que se esqueçam de onde vieram, para que possam ter passos seguros na direção em que forem. Essa segurança, livro algum poderia dar.

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