[Ficção] Festa de Yemanjá, Festa de Orún

É doce morrer no mar

Nas águas verdes do mar

 (Conto Ficcional – Publicado, originalmente em 2010)

Dizia meu velho pai que o ano não começa antes da festa da mãe do mar. Dizia também que de todas as festas, nenhuma é tão linda quanto a festa de Yemanjá.

Hoje eu bem sei. É a festa da Mãe D’água que me faz ficar assim, tão emocionado e tão nostálgico. A batida do coração acelera à medida em que a hora chega. A hora de ver a minha mãe e entrar em suas águas, para encharcar-me nos seus beijos de mãe e de mulher.

Nas minhas veias não corre sangue negro – bem que eu gostaria, ter aquela pele cor de jambo, escura, e os traços marcados e fortes, imponentes. Mas minha mãe, ainda assim, desde muito cedo chamou por mim. Talvez por ter nascido no navio que me trouxe de Portugal, talvez pelos meus olhos que vivem oscilando entre o azul e o verde, tal qual as ondas da minha mãe do mar.

Minha mãe de sangue não sobreviveu ao parto, morreu poucos dias depois de chegarmos ao Brasil. Eu já nascera nas águas brasileiras. Ela, minha doce Rainha do Mar, foi a única mãe que conheci – com freqüência eu a via, acercando o berço e a minha volta quando eu corria criança, brincando com meus amiguinhos. Convivi pouco tempo com meu pai de sangue e meus três irmãos. Todos, católicos, nunca entenderam a estranha magia que se acercava conforme eu crescia.

Quando falo de um pai, meu pai, não é do de sangue que eu falo: este me entregou ao terreiro que ficava próximo de minha casa quando eu tinha apenas sete anos. Chorei, pedi que viesse me buscar depois da feitura que eu tanto precisava. Mas ele nunca veio, ele não entendia a religião do Orixá e nem o que se passava comigo. Achava e dizia para quem quisesse ouvir que aquilo não era coisa de Deus. Ele me deixou com um novo pai: Celestino, filho da guerra, de Ogunjá, negro retinto, homem de paz. Foi ele quem me disse que o ano não começa antes da festa da mãe do mar. Doce, doce é Yemanjá.

Hoje é dia de festa, e hoje sou velho e pai, me preparando e aos meus filhos para a festa da minha mãe. Hoje sou eu quem cuida desta casa.

O dia começou cedo. Fomos buscar ervas no Mercado de Madureira. Aquele lugar lembra tanto a minha infância, depois que cheguei aqui. A cada passo dado são tantos sabores, cheiros e cores, tão típicos do mercado, completamente anacrônicos para mim. É como se ainda visse passar por mim as velhas mães, grandes Ialorixás, procurando por suas ervas de fundamento, dendê, azeite, mel e velas de tantas cores. E visse passar também as Iaôs, com seu gingado, seus torços justos na cabeça, seus fios tão bonitos de simplicidade faceira e seus panos-da-costa, cobrindo-lhes desde acima dos seios.

“Pai, o senhor está pronto? Está na hora.”

É sempre assim. Todo ano eu fico absorto em meus pensamentos.

“Já vou. Estou terminando de me arrumar. Viu meu abadá?”

“Está na segunda gaveta”.

“Já desço”.

Vou saindo, já é hora. Peguei o abadá, os fios, o adijá. Tudo pronto. Conforme desço as escadas meus filhos vão me pedindo a benção. Me abraçam e me beijam. Nunca pedi ou deixei que se curvassem, como muitos fazem. Um abraço sincero me basta. Mostra que sou respeitado por amor, não por medo.

“As comidas estão prontas? Já se despachou Exú para sairmos? Onde estão os acaçás para deixar no caminho?”

“Tudo pronto, meu pai, não se preocupe!”

“Então vamos.”

Olho para todos, meio apertados, mas exalando vitalidade e alegria dentro da pequena Kombi azul claro, ano 79, que comprei tempos atrás. Nestas épocas fico mais sentimental que o de costume. Estão cantando, músicas para ela. Músicas de Santo, músicas de MPB. Estão festejando a existência dela, sorrio. É minha mãe. Que filho não se sentiria orgulhoso?

Chegamos à praia de Mangaratiba. Já está meio tarde.

As festas nas praias do Rio são lindas, mas a balbúrdia e infinita. Os passantes tornam-se expectadores, as pessoas não limpam as coisas que trazem e a morada da minha mãe vai ficando suja, a areia como um lixão. Aquilo me irrita. Prefiro vir para cá. E tudo que vem conosco, volta conosco. Que tipo de religião que preza as forças naturais nós somos se poluímos, se deixamos a natureza com nossas marcas indeléveis.

Ah… a maresia.

“Fazemos o círculo de sempre, pai?”

“Sim, Glorinha, coloca os 16 tocheiros em duas fileiras de 8, com a minha cadeira no meio dos primeiros de cada fileira, e a frente aberta pro mar, viu? Amarra as fitas azuis e as brancas, pra fazer aquela ‘cerquinha’ que a gente faz sempre, a frente aberta, viu? Pra levarmos as comidas pro mar, viu?”

tudo pronto, velas acesas, a barca com os pedidos e as oferendas, as comidas dela, as comidas de quem foi festejar a mãe. Os ogãs batem no coro fazendo os atabaques ecoarem pela praia e pela mata que a cerca.

Glorinha, a mãe pequena dançava feliz, guiando o orixá Xangô de seu filho Lucas. Antes já tinham passado por ali, Ogum, Logun-edé, Oxóssi, todos. Oxalá era o último do Xirê e então abriria para cantar apenas para Yemanjá. Assim se fez. Era hora de cantar apenas para minha mãe. Somente para ela, mas antes disso, era de costume dos meus filhos cantar Parabéns a você para mim.

Eu nunca gostei muito, me lembro toda vez de que estou velho e qualquer dia, Iku vai vir me buscar. Prefiro comemorar minha mãe que os 81 anos que completo hoje, 02 de fevereiro, dia de Yemanjá. Mas sorrio, hoje também completo 74 anos de santo.

Eles trouxeram bolo e docinhos. Pela primeira vez acho que hoje talvez seja um dia a se comemorar. Ofereci o primeiro pedaço de bolo para minha mãe. Fui e levei até o mar, com um pouco da champagne que estouraram.

Depois, foi a hora de voltar ao xirê. Não demorou para eu ver minha filha, Janaina, manifestada em sua Ogunté. Dancei um pouco com ela e sentei-me de volta em minha cadeira, apenas para observar.

Não tardou e ouvi uma voz de mulher ao meu lado.

“Deve estar cansado. Oitenta e um anos, pai José. Muito mais longe que muitos outros foram.”

Me assustei a princípio. Não a vira chegar. Mas sua voz me transmitia uma paz, uma calma. Apenas sorri. Ela era jovem, bonita, mulata de cabelos muito longos e cacheados, muito negros e olhos azuis da cor do mar.

“Conheci um homem, há muito tempo que me disse que o ano não começa antes da festa da mãe do mar e que de todas festas de santo, nenhuma é tão bonita como a festa de Yemanjá”.

Sorri novamente. E ela, em retribuição, segurou minha mão. Era noite e suspirei.

“Venha, venha ver o mar comigo, José.”

Levantei-me. Não senti qualquer peso em minhas pernas como sentia nos últimos anos e nem vi minhas mãos enrugadas.

Pai Celestino também me ensinou que, uma vez na vida, por causa de lenda antigo, Yemanjá é mãe e é mulher. Pensei nisso por um breve momento.

“Feliz Aniversário, meu filho”.

Sorri e a abracei com força. Fomos em direção ao mar. Olhei para trás apenas quando ouvi o Ilá de todos os orixás da minha casa serem dados quase que ao mesmo tempo. Estavam ali, todos aqueles que eu ensinei o caminho para este plano, para me dizer Boa viagem. Glorinha não virou, e eu ouvi seu grito de pavor cortando a noite, em meio à luz precária dos tocheiros. Vi meu corpo, velho e carcomido pelo tempo, sentado e sem vida na velha cadeira de mogno entalhado. Olhando o mar.

“Venha, vamos ver o mar” – ela me puxou pela mão.

Dei as costas e enquanto era conduzido para o seu reino, pensei que era um bom momento de conhecer as terras de Aiocá.. As terras de minha mãe. As terras do fundo do mar. Pensei nos filhos que deixava e em minha filha Janaina, que agora cuidaria do terreiro. Pensei e cantarolei baixinho, despertando um sorriso nos lábios carnudos dela, fazendo com que apertasse firme a minha mão, conforme as ondas já vinham na altura dos joelhos:

 

É doce morrer no mar

Nas águas verdes do mar

 

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