[Timtim por Timtim] Origens do Espiritualismo Brasileiro

Espiritismo

Estudo do Livro dos Espíritos: O que é Deus ? - Tv Mundo MaiorÉ o conjunto de crenças que consideram que a essência humana é baseada na existência de um espírito imortal, que passa por repetidos ciclos de encarnação e reencarnação, vida e morte. Estes processos admitem, além das sucessivas vidas, a comunicação entre os vivos e os mortos, geralmente pelo intermédio de um médium, ou seja, um mediador. A expressão também designa a doutrina e práticas das pessoas que partilham esta crença.

O termo espiritismo vem do francês antigo “spiritisme”, onde “spirit”: espírito + “isme”: doutrina) surgiu em 1857, criada pelo pedagogo francês Hippolyte Léon Denizard Rivail, ou Allan Kardec, para nomear especificamente o corpo de ideias que ele defendeu em “O Livro dos Espíritos”, o “Evangelho segundo o Espiritismo”, o “Livros dos Médiuns”, “Céu e Inferno” e “A Gênese”. No entanto, Kardec não foi o único em seu tempo a trabalhar com tais ideias, e uma outra vertente do Espiritismo nasceu no mesmo período, também na França, pelas mãos Jean-Baptiste Roustaing, que editou “Os Quatro Evangelhos – Espiritismo Cristão ou Revelação da Revelação”, obra psicografada pela médium belga Émilie Collignon. Ambas as vertentes caminharam lado a lado no Brasil, e, especialmente no interior, a visão Roustainguista do espiritismo sempre teve uma maior aceitação devido a sua proximidade com os ritos católicos e com o cristianismo mais tradicional – como a partir da manutenção de outras figuras que não só a de Jesus (como modelo moral) no kardecismo. O distanciamento da prática Roustainguista  e adoção da prática Kardecista como padrão doutrinário veio a partir da década de 1990, quando a FEB – Federação Espírita Brasileira fez os primeiros e maiores esforços no sentido de adotar o kardecismo como padrão, afastando-se de vez da Igreja Católica, e do Cristianismo dogmático.

O Espiritismo compreende várias doutrinas e filosofias que creem na sobrevivência dos espíritos à morte dos corpos, e, principalmente, na possibilidade de se comunicar com eles, casual ou deliberadamente, via rituais ou naturalmente. Os fundamentos do Espiritismo consistem em alguns pontos essenciais. O primeiro é o de que o homem é um espírito temporariamente ligado a um corpo, num eterno ciclo de renovação; segundo: a alma, especificamente, é o espírito que encontra-se ligado, ou não, ao corpo (encarnado ou desencarnado); terceiro, o espírito, compreendido como individualidade inteligente da Criação, é imortal; quarto: a reencarnação é o processo natural que permite vidas sucessivas, visando o aprimoramento dos espíritos; e por último, a Terra não é o único planeta com vida inteligente.


Catolicismo Popular

Catolicismo Popular – Ágora OnlineEsta vertente do Catolicismo foi a que teve, por exemplo, maior influência na formação da Umbanda. Com a colonização, ele foi trazido por portugueses pobres e começou a ser difundido, e hoje também é conhecido como catolicismo tradicional popular. Além de portugueses pobres, alguns pequenos proprietários, índios destribalizados, ex-escravos e, sobretudo, mestiços adotaram esta prática. Sua força é maior na zona rural, onde a influência do poder político do Estado é sempre menor, onde o sistema de trabalho quase se assemelha ao feudalismo medieval, com senhores e vassalos, daí as grandes referências a esta época histórica europeia e a outras tantas práticas. Esta vertente pode ter tido origem no fato de que eram mandados para a colônia os religiosos europeus, que para catequizarem criavam meios um tanto diferentes do catolicismo canônico europeu da época.

Neste catolicismo, a fé é construída sobre alguns princípios bastante diferentes da Igreja Católica canônica. Em primeiro lugar, é o homem leigo quem ocupa papel central; o especialista, isto é, o sacerdote ordenado, tem um papel secundário, o que faz com que surjam as benzedeiras, os milagreiros e outros tantos personagens da cultura popular do sertão; há uma perda relativa da importância do sacramental frente ao devocional; a fé é mais importante que o rito e passa-se a perceber certa manipulação do sagrado com finalidades do cotidiano; por consequência, é sensível uma diferença entre religião e magia. A religião importa uma transcendência; a magia conota imanência. Enfim, releva-se notável o caráter protetor da religiosidade popular: ela visa a solução prática dos problemas do cotidiano e oferece uma segurança adicional frente ao esforço material.

Este Catolicismo é o que se comunica com a Umbanda Tradicional, emprestando a ela seus significados e práticas, como as rezas, as “benças”, entre outros. Neste Catolicismo do Povo, e na própria Umbanda, há certos elementos pertencentes à prática.

Quando falamos de Santo, falamos verdadeiramente da imagem, em volta da qual gira todo o mundo do catolicismo popular. A vida das pessoas se centra nessa devoção e elas se relacionam o tempo todo com o santo – conversam, pedem para proteger, resolver problemas, arrumar namorado, etc – e pode até ficar zangado e virar a imagem para a parede ou colocá-la de cabeça para baixo caso não seja atendido. A imagem personifica o poder sagrado, mas não é a fonte dele. Por isso, diz-se que a imagem não deve ser comprada nem vendida, apenas trocada, mesmo que por dinheiro.

A partir disto, surgem também os oratórios, que podem ser da Casa ou da Família, Públicos ou Ambulantes, levados por ermitões andarilhos que vivem de construir ermidas. Destes, um dos mais peculiares, são os oratórios de almas penadas, erguidos geralmente para acalmá-las. A imagem que personifica o poder do santo é capaz de trazer paz às almas sofredoras que tiveram mortes terríveis e não descansaram em paz.

Em maior escala, esse mesmo cristianismo popular constrói igrejas e capelas, nas quais o padre aparece esporadicamente e, pelo contrário, os responsáveis são os fiéis leigos, que organizam rezas e novenas e onde há sempre uma velha senhora pronta para se valer de suas ervas e cruzar uma criança, tal qual um preto-velho de umbanda.

Para esta vertente do catolicismo, todo o morto desencarnado passa pelo purgatório, pois deve purificar-se de qualquer macha de pecado; além disso, as almas nada podem fazer por si mesmas, cabe aos vivos orar por sua salvação, fazer grandes rezas, acender velas para iluminar seus caminhos e rogar por sua entrada no paraíso com o perdão de seus pecados; as almas só podem interceder junto a Deus por nós após sua entrada no paraíso, corroboradas por nossas preces e sacrifícios.

As orações para as almas que estão no purgatório, neste catolicismo, são feitas tradicionalmente no Cruzeiro do Cemitério, que existe além de toda capela, uma espécie de “concentração e portal ao purgatório”, que existe nas crenças e ganhou forma segundo a fé popular.

A despeito deste Catolicismo popular, há no Brasil Grandes Santuários que, embora comandados pelo poder canônico católico, são reduto das maiores manifestações da fé e da realizações de milagres. São eles: Santuário de Nossa Senhora de Aparecida; Santuário de Nossa Senhora da Penha; Santuário de Nossa Senhora de Nazaré; Santuário do Divino Pai Eterno; Santuário Bom Jesus da Lapa; Santuário de São Francisco das Chagas do Canindé. Da mesma maneira, as principais festas de Santos cultuados no catolicismo popular são, em ordem cronológica, a dos Santos Reis, de São Sebastião, de São José, a Semana Santa, o Divino Espírito Santo, o Natal, as Festas de Nossa Senhora do Carmo e Nossa Senhora da Conceição, além de Nossa Senhora do Rosário, São Francisco de Assis, São Benedito e os Santos Juninos: Santo Antonio, São João e São Pedro. Tanto para ir aos Santuários como às festas de cada Santo, um dos maiores fenômenos que se criou foi a Romaria, uma atividade religiosa de peregrinação e auto-sacrifício.


Cultos de Ancestralidade

BABA EGUNGUN - NOSSA ANCESTRALIDADE | egbeagbonniregunatoSão cultos que visam estabelecer e fortalecer contatos com os espíritos dos Ancestrais, isto é, pessoas que em vida pertenceram a uma mesma família, comunidade ou grupo. Para falar de Cultos de Ancestralidade é essencial falar sobre dois fatores importantíssimos dessa equação: a família e a história. O conceito de família para uma grande parte das comunidades africanas é muito diverso do que conhecemos no nosso cotidiano. A família não é um mero laço de sangue direto – pai, mãe, filho, filha, avô, avó, tios e tias. A família compreende todo o ambiente espiritual de que um indivíduo está cercado, a família está baseada na relação de cooperação, de ajuda mútua, de aprendizado. Em algumas comunidades, por exemplo, as crianças não têm um nome próprio até cerca dos sete anos de idade. E isso não acontece, como alguns pessimistas tentam provar, por causa de altas taxas de mortalidade. É sim por que o Africano enxerga que, a partir de então é que a criança começa a desenvolver sua personalidade. Antes de ser um indivíduo, ele deve estar integrado ao ambiente coletivo e ao ambiente espiritual, e mais do que isso, ele não tem apenas uma mãe: ele tem as mães espirituais, aquelas que precederam as que hoje estão encarnadas, e ele tem todas as mulheres daquela comunidade como sua mãe. A individualidade é um conceito europeu. Por isso a convivência social africana, o respeito pelos mais velhos e pelas tradições é tão mais intenso e presente nas comunidades autóctones, isto é, tribais. A família e o coletivo transcendem a carne e o mundo físico. Tal qual o Baobá, com raízes são profundas, mas cuja copa tenta alcançar o mais alto do céu. O Baobá é a fonte da ancestralidade e a história de todos os que estão em suas raízes, tronco, folhas e galhos é guardada cuidadosamente. Entretanto, é necessário lembrar que a grande maioria das línguas africanas não possuía escrita até o contato com o europeu e, mesmo até hoje, uma grande parte ainda não o possui. Então, como a história era guardada? De uma maneira muito simples: o africano especializou-se em guardar suas histórias por meio da música e da poesia, memorizando-as. Surgiram os historiadores da palavra, conhecidos como griots, aqueles que contam as histórias. Eles fixam em suas mentes as histórias e as passam de pai para filho, não só sobre uma família física, mas sobre toda uma comunidade. Histórias de Reis e de gente comum; histórias de guerras, batalhas, vitórias e derrotas; histórias de migrações, secas e chuvas, de boas colheitas e de estiagem. Os griots são a palavra que mantém viva a chama ancestral, pois eles não permitem que aqueles que viveram antes, sejam perdidos da memória. Eles não guardam apenas histórias. Guardam conhecimentos, e justamente por isso é que se diz que quando morre um griot na África é como se toda uma biblioteca de exemplares únicos fosse queimada. E embora hoje exista o recurso da escrita, mais do que história e conhecimento, o papel do griot é um compromisso com o ancestral, o de não permitir ao jovem, á criança, ao homem e à mulher, que se esqueçam de onde vieram, para que possam ter passos seguros na direção em que forem. Essa segurança, livro algum poderia dar.


Pajelança e encantaria na Amazônia brasileira - Revista SensoEncantaria Brasileira

Quando da chegada dos portugueses e outros tantos exploradores dos mares no Brasil, não era difícil constatar que estas terras já tinham outros donos. Eles foram chamados de Índios, pois se acreditava que aqui seriam as Índias. Este foi o primeiro momento em que deixamos de reconhecer as nossas raízes: o momento exato em que os tupis, tupinambás, tamoyos, guaranis, entre tantos outros, passaram a ser todos índios. Selvagens. Almas perdidas a serem salvas pelo cristianismo português.

A força destas raízes, entretanto, não deixou que esta ancestralidade morresse com a transculturação a que foram submetidos os povos que viviam no território nacional. Justamente é dessas entidades – os espíritos dos índios que aqui habitavam – e os mestiços dos índios com os brancos e com os negros, que nasceu a brasilidade que hoje vemos incorporada nos terreiros de Umbanda.

Mas a Encantaria brasileira, tal qual a própria formação do país, não se resume às entidades e ancestrais que aqui habitavam antes da colonização. Muitos vieram para cá ao longo dos séculos e aqui fizeram seu lar e constituíram novas culturas mesclando suas próprias tradições, àquelas que já existiam aqui.

Temos os Reinados, as Cortes de Príncipes e Princesas Mouros, Reis e Rainhas do Egito, Espíritos do Extremo Oriente, Árabes e Hindus, e cada um deles, em suas mais diversas regiões, se integrou à vida espiritual no Brasil, constituindo suas novas Casas. Com isso, a Encantaria Brasileira é muito mais rica do que esta ou aquela vertente. Há Ciganos, Mestres, Príncipes e Princesas, que se manifestam nos Baiões, Catimbós, Juremas, Daimes, Toya Jarina, Candomblés de Caboclos, e enfim, em toda a diversidade dos ritos nacionais.


Da Diversidade e do respeito ao Outro

Falar sobre as origens do Espiritualismo Brasileiro é sempre um problema, mais do que histórico, Doutrinário e Religioso, pois, num país predominantemente Cristão-monoteísta e, infelizmente, profundamente intolerante com as manifestações populares, ao falar do Espiritualismo Brasileiro, mais que falar sobre o politeísmo em si, é necessário falar sobre o papel do “outro”na formação da nossa identidade, individual e coletiva.

Mais do que a questão da fé, trata-se da questão da identidade e da questão do reconhecimento do outro em suas singularidades. Não é só uma questão da antropologia. Não é só colocar a cultura do outro sob um microscópio. É entender a diversidade e a pluralidade, bem como a mestiçagem, o panteísmo e politeísmo, não como “alternativas” ao monoteísmo vigente, mas como manifestações legítimas e preservadas da cultura, da história e da espiritualidade. O monoteísmo fosse o padrão – embora haja, mesmo nas religiões politeístas, o princípio criador universal, que pode, em muitos momentos, ser entendido como um “deus” ou “inteligência” suprema, última escala da hierarquia divina.

Para quem quiser se aprofundar neste debate, eu recomendaria, antes da leitura sobre o aspecto doutrinário-religioso, a leitura de duas obras, “Orientalismo” de Edward Said e “Presenças do Outro“,de Landowski.

Por que isso? Por que o maior problema do monoteísmo judaico-cristão está no positivismo com que a identidade da visão dominante social e politicamente é tratada. Além disso, também fica perceptível em como o aspecto missionário da mensagem diminui, condena e relega a “sub crença” aquelas que são diversas e plurais.

Enquanto não se reconhece a cultura do outro como válida, vai-se tentar impor a própria cultura.

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