Um Ponto de Equilíbrio: a moral e o comportamento de Exus & Pombagiras

Publicado originalmente em “O Livro da Esquerda da Umbanda”, a ser lançado em setembro de 2010

Exus e Pombagiras são entidades por vezes bastante contraditórias, não por que sejam ruins ou por que sejam amorais[1] e imorais. Eles são bastante controversos pois não estão presos a amarras sociais e os elementos que regem são, em geral, profundamente ligados a materialidade.

Para entender melhor como isso funciona, é importante entender de onde surgiram Exus e Pombagiras.

O nome Exu é iorubano, significa mensageiro e remete ao Orixá que fica entre o céu e a terra, que leva e traz mensagens entre os homens e os deuses. Em sua natureza ele rege tudo quanto é material, físico e carnal, é ele quem traz o dinheiro, a fertilidade, o prazer, a festividade, a comida farta. Já a palavra Pombagira é uma aportuguesação do termo do quimbundo (língua autóctone de Angola, na África) Mbobogiro que também remete a um espírito mensageiro, que fica entre o céu e a terra. A principal diferença entre eles é que, no panteão iorubano vê-se exu como uma essência masculina e entre os quimbundos como uma essência feminina, daí a associação (nesse mesmo panteão existe elegbara para a essência feminina). Para entender sua real natureza é necessário pensar nas lendas a respeitos dos Orixás e Inkices que deram origem a estas entidades.

São muitas as lendas que concernem a Exu e Pombagira, todas muitos semelhantes, versões com nomes diversos para as mesmas histórias, portanto, padronizaremos as narrativas em nome de Exu.

Exus, Pombagiras e Encantados na Esquerda

Em especial, algumas destas histórias contam as características mais cultuadas pelo povo de Umbanda neste Orixá. Conta uma dessas lendas que Exu era um andarilho, sem eira nem beira, não era rei, nem possuía qualquer riqueza, não tinha profissão, não conhecia nenhuma arte, não tinha um objetivo pelo que se esforçar. Quando não tinha mais o que fazer, ia até a casa de Oxalá, onde se divertia vendo o Pai-de-Todos fabricar os seres humanos. Com o tempo passou a prestar muita atenção em tudo o que o velho Orixá fazia. Além de ver tudo quanto era feito dos seres humanos, Exu via todos que iam ali levar presentes e oferendas. Com o tempo passou a ajudar Oxalá, pois viu por dezesseis anos como ele fabricava cada ser humano. Foi quando Oxalá percebeu que perdia muito tempo recebendo ele mesmo os presentes e as pessoas, no que pediu a Exu que ficasse na Encruzilhada que antecedia sua casa. Exu cumpriu perfeitamente seu papel, de não deixar passar ninguém que não fosse convidado e levar as oferendas para Oxalá, no que Oxalá o recompensou: todos que ali passassem, deveriam dar a Exu também uma oferenda, e assim o seria em toda encruzilhada na qual ele se pusesse. Assim, Exu virou o Rei da Encruzilhada.

Outra lenda sobre Exu reza que este, por ser o mais novo, irmão de Xangô, Ogum, Oxóssi, sempre recebia as homenagens que lhe competiam por último. Por querer mais atenção, ele vivia criando confusão e turbulência, o que fez com que Oxalá, seu pai, decidisse castigá-lo com severidade, aprisionando-o.

Seus irmãos mais velhos o aconselharam a fugir e deixar Orun (o céu) no que ele veio para Ayé (a terra). Mas, enquanto Exu estava no exílio, seus irmãos continuavam a receber festas e louvações. Ele não era mais lembrado e ninguém sequer procurava notícias de seu paradeiro. Usando mil disfarces, ele rondava nos dias de festas, as portas dos templos de seus irmãos, e ninguém o reconhecia disfarçado, pois Exu tem mil faces quando quer. Ele vingou-se por ter sido esquecido, semeando sobre o reino dos Orixás toda sorte de desgraça, intriga, confusão e desentendimento. Não demorou muito para que as festas religiosas fossem proibidas em função da balbúrdia e dos problemas que traziam. Os sacerdotes, então, foram procurar um babalaô nas portas da cidade. O babalaô saberia o que estava acontecendo por que ele é o sacerdote que comanda e possui o poder de ver nos búzios o destino de cada um.

Ele abriu os búzios e disse que Exu falava no jogo e estava furioso por ter sido esquecido por todos, e que por isso exigia dos homens que os primeiros sacrifícios fossem dele e que os cânticos de toda e qualquer cerimônia fossem, primeiro, sempre para ele, pois ele era o mensageiro entre Orun e Ayé, ele vivia entre o mundo dos homens e dos deuses, somente ele sabia o caminho. O babalaô disse que Exu pediu um bode e quatro frangos, mas os demais sacerdotes caçoaram dele, dizendo não haver motivo para se preocupar com um orixá menor como Exu, não dando importância ao que este dizia. Só que quando quiseram se levantar para ir embora, não podiam se mexer, suas pernas estavam imóveis e não podiam se levantar. Era mais uma das artimanhas de Exu. Há quem jure que sua gargalhada pôde, então, ser ouvida ao longe.

O babalaô pediu respeito, e recitando cânticos em nome de Exu, ajudou cada um a se levantar. O babalaô os aconselhou a fazer o que ele mesmo fazia, pois Exu é mensageiro, Exu corre o mundo e tanto pode trazer quanto levar: que dessem primeiro de comer para acalmar Exu e que fosse assim para todo sempre – daí a tradição de se despachar oferendas para Exu antes de realizar qualquer ritual.

Há outras tantas lendas, mas estas duas falam especificamente sobre aquilo que é característica primeira de Exu: ele é o mensageiro, portanto, deve comer primeiro, para levar as mensagens e oferendas aos outros deuses. Exu rege a encruzilhada, isto é, a junção de todos os caminhos, por que ele é cuidadoso com as ordens do Pai Oxalá.

Também mostram que Exu tem um senso diferente de fazer justiça ou de tocar as coisas como devem ser: a vingança, para ele, é um tipo de acerto, uma maneira de conseguir o equilíbrio; para ele, muitas vezes, os fins justificam os meios e são a ferramenta pela qual um objetivo deve ser alcançado; ainda, o que a sociedade acha nem sempre é o certo, pois cada um sabe o que é necessário para si e para aqueles que ama. A justiça de Exu, e por conseqüência, das entidades que atendem em seu nome, é bastante concisa, não tolera hipocrisia e não se deixa levar por achismos, nem tampouco suas decisões estão baseadas no que é visível, muitas vezes eles consegue prever coisas que, num determinado momento são incertas, mas podem se mostrar bastante concisas.

Para exemplificar isso, nada melhor que um exemplo da vida real.

Recentemente estive em uma casa de Umbanda, que não citarei a seguir e, na assistência, enquanto aguardava o início da Gira, perguntei a uma moça presente, por que ela estava ali. Ela me respondeu que estava ali para falar com a Pombagira Maria Padilha das 7 Encruzilhadas. Perguntei por que ela queria falar especificamente com aquela entidade. Sua resposta foi bastante concisa:

“Eu quero ter um filho com meu marido e seu que ela vai me ajudar; estamos tentando há 3 anos, mas eu sofri um acidente pouco antes de casar e não consigo engravidar. Ela já nos ajudou a ficar juntos, então sei que ela vai fazer o possível para termos um filho.”

A fé inabalável daquela mulher no que a Pombagira faria para ajudá-la era heroica. Quando ela saiu de seu atendimento, veio falar de novo comigo. Erguntei como tinha sido e ela estava um pouco decepcionada, disse que a Pombagira não lhe mentira: seria quase impossível que ela fosse mãe e disse também que, mesmo que ela não tivesse filhos do sangue dela, o instinto maternal dela faria com que ela criasse outros filhos, dela, mas não de sangue e de outras pessoas. Quando perguntei a profissão da moça, descobri que ela era berçarista, numa creche pública que abrigava crianças carentes.

Por fim, me restava uma última curiosidade: ela tinha dito que tinha conseguido ficar com o marido com a ajuda da Pombagira. Perguntei-lhe como, e ela respondeu:

“Conheci meu marido por intermédio de uma amiga, com quem ele era casado. Me apaixonei, mas sempre mantive isso em segredo, até por que essa minha amiga estava passando por problemas bem graves. Lutei contra o que eu sentia, eu sabia que não era certo, que as pessoas não iam aceitar. Ela era alcoólatra e usava algumas drogas esporadicamente, mas justificava isso por conta de uma depressão. Só que com o tempo, ela foi arrastando ele para o fundo do poço junto com ela e se afastou dos amigos que tentavam ajudar. Ela achava que aquela vida era boa pra ela. Ela começou a traí-lo, ele começou a beber, até que por conta da vida desregrada que ela levava, ela ficou grávida, perdeu e ficou estéril. Foi quando pedi a ajuda de dona Padilha para resolver a situação. Ela me disse que em Sete dias, para bem ou para mal, dependendo do quanto ELA tivesse vontade de resolver a situação, tudo estaria resolvido. No sétimo dia, ela fugiu com outro, deixou ele sozinho, o casamento deles acabou e eu ajudei a se recuperar. Depois de 6 meses ficamos noivos e depois de 1 ano e meio, casamos. Minha amiga se afundou nas drogas, por vontade dela. Quando soube que eu e ele estávamos juntos, começou a me difamar dizendo que eu tinha roubado o marido dela e acabado com a vida dela. Mas quem sabe da verdade, como disse a Dona Padilha, sou eu e ele, e isso basta.”

Pombagira Maria PadilhaPombagiras, em especial, sabem que casamento é feito com amor, não com um papel assinado no cartório. Sabem que quando há desrespeito e quando um leva o outro para o fundo do poço, isso não é amor, é obsessão – e as entidades da esquerda trabalham justamente no ato de acabar com esse tipo de relação doentia.

Sobre o caso da moça não poder ter filhos, para alguns, não ser mãe de sangue de alguém pode ser um suplício, um castigo por algo feito errado. O que as pessoas não enxergam é que o destino de uns não é o dos outros. Há muitas mães de sangue que renegam seus filhos, deixam-nos na miséria, pedindo esmolas, sendo explorados. Há, contudo, aquelas que têm amor suficiente para dar e mudar o destino de crianças que nem sempre são do seu sangue. Cada pessoa tem uma missão diferente a cumprir. A Pombagira sabia disso, e provou ao dizer a verdade: que dificilmente aquela mulher teria um filho do seu próprio sangue, mas que ela poderia ter muitos outros e assim realizar-se como mulher.

Para a sociedade e, principalmente, para os valores cristãos, o que a Pombagira fez foi antiético, imoral e maldoso: separar duas pessoas casadas em prol de uma terceira. Será?

Será que valeria mais a pena deixar o homem se afundar nas drogas e no alcoolismo junto com a mulher que não queria sair desse caminho, nem aceitava ajuda? Será que valeria mais a pena deixá-lo num casamento infeliz, estéril por conta da irresponsabilidade da esposa? Será que valeria a pena afastar a única amiga verdadeira que aquele homem acabou tendo e que foi até uma entidade pedir por ele e por sua saúde, e não por si, tudo que por que a mulher era incapaz de ter vontade de largar seus vícios?

Portanto, e por último, será que a Pombagira foi tão irresponsável assim ao intervir na situação?

Os valores sociais dizem que sim. Mas, em termos de justiça e sentimento pessoal, duvido que alguém seria capaz, de consciência limpa, de dizer que não.


[1] É preciso que se faça uma certa diferenciação entre as palavras imoral e amoral. Imoral é aquele que conhece a Moral, mas não se orienta por ela e a renega. Amoral é aquele que desconhece a Mora, como uma criança que não empresta o brinquedo a outra não por ser egoísta ou maldosa, mas por que ainda não aprendeu a dividir e compartilhar os bens.

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